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Assuntos! #23

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Marcas de nossa época

Nesta oportunidade, poderemos mergulhar em duas citações de Freud, nas quais o pai da psicanálise situa assuntos que fazem família, assim como os pontos de tensão gerados por estas na atualidade, tal como nos transmitem nossas quatro colegas da EOL. As novas configurações familiares, a onipresença dos efeitos da ciência e do mercado, a sociedade da transparência e as marcas de nossa época serão alguns dos detalhes que suas pontuações destacarão.

Silvia Ons parte da antiga fórmula jurídica: "O pai sempre é incerto, a mãe é certíssima" e assinala que, com as novas técnicas de reprodução assistida não apenas se agudiza a distância entre reprodução e sexualidade – incrementando a antiga crença sobre a incerteza a respeito do pai -, mas também que esta se estende à mãe. Seu texto avança com a pergunta sobre os modos de inscrição dessas afirmações nas novas constelações familiares, realçando que o corpo sexual não se reduz ao útero, ao óvulo, ao espermatozoide, já que sustenta o gozo singular do ser falante que o conduz às funções que ocupará.

Alejandra Breglia, por sua parte, enfatiza a função da novela familiar dos neuróticos. Situa as fantasias, sonhos diurnos, jogos infantis como recurso para a realização de desejo e de alienação e destaca que a isso se agrega o sexual, quando a criança se dá conta das condições sexuais diversas de pai e mãe e, então, as fantasias vão adoptando outro tom. Deixa assinalado que a novela familiar resulta necessária para que o sujeito possa articular seu lugar em certa trama, entre o certo materno e o incerto paterno.

Camila Candioti inicia seu relato com a afirmação "La familiglia prima di tutto!", situando que se trataria de um assunto também na família de palavras. Lalíngua. A respeito da "discordância inevitável" entre o amor -familiar- e a cultura, ressalta os ritos de iniciação e a função de "apoio" da sociedade na conquista da autonomia do sujeito. Aqui, introduz as seguintes perguntas: De que se vale um sujeito na atualidade? Quais ritos persistem na sociedade do espetáculo? Com que práticas? Propõe, já em seu título, uma orientação prática: Embaralhar e dar novamente...., com as mesmas cartas?

Roxana Chiatti, se introduz na citação pondo a ênfase na relações entre família e cultura, onde o amor pela cultura motorizaria o desprendimento familiar, e compartilha conosco um pensamento que a citação freudiana lhe provoca: estas relações entre família e sociedade, é possível considerá-las vigentes, hoje? Podemos seguir dizendo que a sociedade traria uma apoio para esse desprendimento? Sua aproximação às respostas é dupla: entende que sim e também que não, e nos lembra que, em última instância, se trata de desfamiliarizar-se.

E algo mais. No mesmo Boletim, um plus: a entrevista ao ator e produtor de teatro e TV, Adrián Suar – que nos fala da função paterna: de seu pai e de seu papel como pai - acompanhada de fragmentos da ficção que produziu: "Segredos de família".

Não percam!

María Eugenia Cora, Responsável Tesouraria VIII ENAPOL



 

Freud dixit

"Depois, quando a criança vem saber das diferentes funções sexuais do pai e da mãe, e compreende que pater semper incertus est, enquanto a mãe é certíssima,* o romance familiar experimenta uma restrição peculiar: contenta-se em elevar o pai, já não põe em dúvida a origem pelo lado da mãe, que não pode ser alterada".

Freud, S., O romance familiar dos neuróticos (1909). In: ________. Obras completas, volume 8: O delírio e os sonhos na Gradiva, Análise da fobia de um garoto de cinco anos e outros textos (1906-1909). São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 422. (Tradução de Paulo César de Souza)

* O pai é sempre incerto e a mãe é certíssima, é um antigo princípio jurídico [N.A.].

Esse desarranjo estrutural
Alejandra Breglia (EOL)


 

"No decurso do desenvolvimento, porém, a relação do amor com a civilização perde sua falta de ambiguidade. Por um lado, o amor se coloca em oposição aos interesses da civilização; por outro, esta ameaça o amor com restrições substanciais.
Essa incompatibilidade entre amor e civilização parece inevitável e sua razão não é imediatamente reconhecível. Expressa-se a princípio como um conflito entre a família e a comunidade maior a que o indivíduo pertence. […] Mas a família não abandona o indivíduo. Quanto mais estreitamente os membros de uma família se achem mutuamente ligados, com mais frequência tendem a se apartarem dos outros e mais difícil lhes é ingressar no círculo mais amplo da cidade […]. Separar-se da família torna-se uma tarefa com que todo jovem se defronta, e a sociedade frequentemente o auxilia na solução disso através dos ritos de puberdade e de iniciação".

Freud, S.: O mal-estar na civilização e outros trabalhos, em ESB das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XXI, parte V, Rio de janeiro, Imago, 1996.

Embaralhar e dar de novo…
Camila Candioti (EOL)

Desfamiliarizar-se
Roxana Chiatti (EOL)

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