Atividades preparatórias

Resenha da Noite de Apresentação do VIII ENAPOL: ASSUNTOS DE FAMÍLIA, seus enredos na prática

Terça-feira, 25 de outubro, se realizou a Noite de Apresentação do VIII ENAPOL. Uma noite com a sala lotada, em meio a um grande entusiasmo, reuniu a psicanálise e a arte. Alejandra Glaze e Viviana Mozzi, suas Diretoras, Flory Kruger, Presidente da FAPOL e Ernesto Sinatra, Presidente do VIII ENAPOL, apresentaram de um modo preciso e cativante as linhas gerais que guiarão o trabalho de investigação. O VIII ENAPOL nos reunirá nos dias 14 e 15 de setembro de 2017, no Hotel Hilton de Buenos Aires

Ao finalizar a apresentação de Viviana Mozzi, inesperadamente as luzes do auditório se apagaram para dar lugar às vozes de quatro atrizes que, com uma pequena lanterna iluminando seus textos, leram em diferentes momentos cartas de Sigmund Freud, Ernest Jones, Salvador Dalí, Friedrich Nietzsche, James Joyce e Eva, a mãe de Kevin. Cartas escritas no século passado as quais criaram o marco para introduzir "os assuntos de família…".

Assim, surpreendidos e causados pela impecável seleção de cartas realizada por Daniel Aksman e pela encenação organizada por Silvia Bermúdez, Flory Kruger tomou a palavra e começou expressando que a família é uma instituição que sofreu mudanças ao longo da história, próprias das ressonâncias de cada época. Baseando-se na referência de Lévi-Strauss ao matrimônio tradicional como aquele que dá origem à família, constatou que a definição dada pelo antropólogo francês se tornou um tanto desatualizada.

Por outro lado, expressou que Lacan, com a linguística, deu um passo a mais com a metáfora paterna, dando conta da substituição da natureza pela cultura. Isso possibilitaria o advento do sujeito e, portanto, do desejo, ou melhor, de um desejo que não seja anônimo. Recortou um fragmento de A história da sexualidade, de Michel Foucault, e situou as marcas da época vitoriana na qual a sexualidade se mantinha encerrada. A família conjugal a capturava na seriedade da função reprodutiva. Então, hoje, disse ela, nos encontramos com novas formas de família e diferentes tipos de demandas. Na clínica, aponta-se a particularidade do sujeito recortando o sintoma para cada um.

De Freud se extrai a passagem pelo Édipo. De Lacan, a formalização do Édipo em termos linguísticos e advertidos da decadência do pai, tendo sempre como bússola que a orientação do tratamento é em direção ao real. De Miller, assinalou o saber fazer na prática, não sem a referência edípica que permite situar e orientar o analista.

A família, como aparato de gozo, é o campo onde se jogam os assuntos de família. Encontramo-nos, hoje, diante de novas configurações familiares, mudanças da estrutura tradicional. Famílias tradicionais, monoparentais, juntadas, homoparentais, duas mães, dois pais, etc. Essas mutações familiares têm consequências para a psicanálise. Para finalizar, Flory Kruger apresentou uma vinheta de sua prática clínica que ilustra perfeitamente o enunciado, e conclui expressando que "a família é algo a atravessar guiado por uma análise, visando a aceder a um amor mais digno, um desejo mais liberado e um gozo mais regulado".

Para uma nova leitura de cartas, Ernesto Sinatra realizou sua apresentação em duas partes. Na primeira, referiu-se às Conversações como um dispositivo de Escola que voltará a caracterizar o próximo ENAPOL. Destacou que elas constituem um lugar privilegiado do laço associativo, pois sua convocatória está dirigida não apenas aos membros, como também inclui os não membros, acrescentando que estes, na vizinhança de nossas Escolas da AMP, constituem um firme suporte para sua realização.

Na segunda parte, quando assinalou a nostalgia como uma cicatriz do nome do pai – compartilhando lembranças de velhos programas de televisão -, nos advertiu: como dedicar-nos aos assuntos de família sem interpor as nostalgias que nos tocaram? Afirmou que a família é, para cada um, o lugar inaugural onde se aloja o Outro decisivo – o Outro materno –, e que ali se situam as relações de parentesco, razão pela qual define a família como o que condensa o lugar e o laço.

Aplicando um dos temas das Conversações ("Violência e segregações familiares"), destacou o femicídio como um novo nome de um velho problema; nada mais, nada menos, que "o retorno impotente do pai/homem quando não suporta o hétero que atualiza uma mulher", na tentativa de destruir no Outro as diferenças sexuais marcadas pela castração no Uno, deslocando o kakon para o Outro feminino.

Para finalizar, enfatizou que, no final de uma análise, a família pode se transformar em Outra coisa: os personagens se tornam elementos inconsistentes de um conjunto. Arrisca, então, uma definição de família – que corresponderia a um analisado: "as marcas do Outro em um", acrescentando que desse modo a família terá sido privada de sua função na fantasia. Produzir-se-ia, assim, nessa torsão permitida por uma análise, um desprendimento, depois de reduzir o gozo do sentido ligado ao desejo do Outro ao gozo singular tendo como indício o desejo de cada um.

Assim, em um clima de alegria e entusiasmo, em uma noite de encontro diferente… , foi inaugurada a comunidade de trabalho do VIII ENAPOL!

Resenha de: Natali Boghossian, Laura Valcarce e Leticia Varga.
Tradução: Vera Avellar Ribeiro