Atividades preparatórias

Apresentação nas XXV Jornadas da EOL

29 e 30 de outubro de 2016

Viviana Mozzi

Enredos de família… seus assuntos na prática… Isto não é um equívoco, está claro para mim que o próximo ENAPOL nos convoca sob o título: "ASSUNTOS DE FAMÍLIA: seus enredos na prática".

No entanto, seguindo as suas etimologias, podemos enlaçar os termos. Por um lado, assuntos:  argumento / relação amorosa mais ou menos secreta / evento escandaloso. Por outro, enredos: emaranhado / mentira que ocasiona distúrbios / eventos enlaçados formando um nó central / amores (amoríos).

Ambos remetem a tramas um tanto enganosas que, de alguma maneira, tocam no amor. E podemos pensar que tanto nas famílias como na prática encontramos os nós do amor, do ódio e dos segredos, com os quais cada um constrói sua novela.

Podemos dizer, inclusive, que o brasão de uma ilustre família se situa em um dos últimos e importantes giros da obra de Lacan:

Vale a pena evocar a maneira como foi elucubrado o nó dos Borromeos, ou seja, a ideia mesma da estrutura. Nessa época, isso queria dizer que se uma família se retirava de um grupo de três, as outras duas se viam ao mesmo tempo livres por não mais se entenderem. A sórdida fonte dessa história de Borromeo valia ser recordada.[1] […] Evidentemente, me enredo com assuntos de cadeia borromeana.[2]

Hoje, a família, tal como era definida, modificou-se e se ouve dizer rapidamente que sua ordem natural se rompeu, como se a família fosse natural em relação à reprodução.[3]

A família é um mito que se funda no desencontro, no mal-entendido e na decepção. Mito a partir do qual cada um inventa um modo de habitar o mundo. A direção da prática apontará atravessá-lo, já que quando recebemos um sujeito em uma análise não o recebemos como elemento de uma família, diz Bassols,[4] mas escutamos os significantes privilegiados provenientes de sua história familiar. Desse modo, "uma análise é uma "desfamiliarização" do mais familiar", atravessar o que nos constituiu, e isso é encontrar o que não se justifica pelo mito.[5]

Dando alguma pincelada por um dos eixos propostos para trabalhar em direção ao próximo ENAPOL, as novas identidades de gênero, a maneira de formar famílias, hoje, trouxeram consequências sobre as quais se deverá trabalhar eliminando os preconceitos da norma. Já podemos encontrar uma delas no empuxo às nomeações que, na tentativa de fundar uma exceção, se inscrevem em coletivos que os afastam dela.

Talvez, a ilustre família dos Borromeos, de acordo com o uso que Lacan fez de seu brasão, possa dar alguma luz para pensar as "novas" apresentações familiares mais além das fórmulas da sexuação, já que, seguindo Miller, com as fórmulas Lacan tentou captar o sem saída da sexuação em uma trama lógico-matemática. Mas não se pode fazer isso sem aprisionar o gozo na função fálica, que implica o binário homem e mulher, "como se os seres vivos pudessem estar nitidamente repartidos". Lacan mesmo disse "que não há nada mais impreciso do que a pertinência a um dos lados".[6]

Trata-se, hoje, de outra lógica que, no social, produz efeitos de multiplicação e uma clínica identitária, à diferença da clínica dos gozos. Lacan antecipava que a dissolução das identificações se cristaliza em uma identidade,[7] que promove a crença de que há um modo de escrever a não relação sexual e obter como ideal um sujeito desidentificado: cada vez mais identidades eliminando as singularidades do gozo.

Começam a chegar nos consultórios os sujeitos que fazem parte das denominadas "novas famílias". Será preciso tirar as consequências subjetivas. Nosso próximo ENAPOL será um bom espaço para discuti-las, considerando também que é uma crença supor que identificar-se com um significante mestre implica a pacificação na relação do sujeito com o gozo. O gozo não se reabsorve só com a prática sexual, o sitoma o verifica.

BIBLIOGRAFIA

  • Bassols, M., (1993) "La familia del Otro", en: Mediodicho, Maldita familia, Revista de Psicoanálisis N° 32, Publicación de la Escuela de la Orientación Lacaniana, Sección Córdoba, 2007.
  • Lacan, J., (1976-1977) "El seminario 24. L'insu que sait de l'une-bevue s'aile à mourre", inédito.
  • Lacan, J., (1973-1974) "El seminario 21. Les non dupes errent", inédito.
  • Miller, J.-A., (2012) "Um real para o século XXI. Apresentação do tema do IX Congresso da AMP", Opção lacaniana, n. 63, S. Paulo, Ed. Eolia, 2012.
  • Miller, J.-A., (1993) "Cosas de familia en el inconsciente", en: Mediodicho, Maldita familia, Revista de Psicoanálisis N° 32, Publicación de la Escuela de la Orientación Lacaniana, Sección Córdoba, 2007.

NOTAS

  1. Lacan, J., (1976-1977) "L'insu que sait de l'une-bevue s'aile à mourre", lição de 8-3-77.
  2. Ibídem, lição de 12-2-77.
  3. Miller, J.-A., (1993) "Cosas de familia en el inconsciente".
  4. Bassols, M., (1993) "La familia del Otro".
  5. Ibídem.
  6. Lacan, J., (1973-1974) "Les non dupes errent", lição de 15-1-74.
  7. Lacan, J., (1976-1977) "L'insu…", op. cit., lição de 16-11-76.

Tradução: Vera Avellar Ribeiro