Atividades preparatórias

Apresentação VIII ENAPOL "Assuntos de família. Seus enredos na Prática"

25 de outubro de 2016 – Sede da EOL

Flory Kruger

Esta noite nos encontramos para apresentar-lhes o VIII ENAPOL que acontecerá, como vocês sabem, na primavera lacaniana, em setembro de 2017.

Nosso querido presidente da AMP, Miquel Bassols, iria acompanhar-nos, mas, como todos sabem, surgiram questões pessoais que o fizeram suspender sua viagem. Portanto, seremos Ernesto Sinatra, Presidente do próximo ENAPOL, e eu mesma que abriremos, hoje, a série de apresentações para o VIII ENAPOL, as quais acontecerão em nossa Escola até sua realização.

Desde o último ENAPOL em São Paulo, ano passado, os Encontros Americanos de Psicanálise da Orientação Lacaniana estão sob a responsabilidade da FAPOL e, nesse sentido, quero transmitir-lhes, em nome de Cristina González e Rômulo Ferreira da Silva, ou seja, o Bureau da FAPOL, a alegria que sentimos pelo modo como esta preparação vem sendo levada a cabo.

Contamos com uma equipe de trabalho excelente, dirigida pelas duas Diretoras em Buenos Aires, Alejandra Glaze e Viviana Mozzi, acompanhadas por dois Responsáveis, um de cada Escola, Maria Josefina Fuentes, da EBP, e Renato Andrade, da NEL.

Por outro lado, foram montadas numerosas equipes de trabalho que se encarregam das múltiplas tarefas requeridas por uma organização com essas características.

Direi, agora, algumas palavras sobre o tema que nos convoca: "Assuntos de família. Seus enredos na prática".

O que dizer sobre a família? Trata-se de uma instituição que sofreu mudanças ao longo da história e essas mudanças são o produto das ressonâncias próprias a cada época.

Nas palavras do antropólogo francês, Claude Lévi-Strauss, o matrimônio é a instituição que dá origem à família, uma organização na qual há o esposo, ou marido, uma mulher com o papel de esposa, filhos nascidos dessa relação, e seus membros estão unidos por laços legais de direitos e por proibições sexuais. Cabe dizer que essa definição ficou um tanto desatualizada.

Lacan transcende os personagens da realidade e os substitui por significantes, inventando, assim, a metáfora paterna, que é como a substituição da natureza pela cultura, a qual pode ser produzida por sermos sujeitos de linguagem e pela língua mesma, pois, pelo fato de sermos seres falantes, a metáfora encarna a substituição da necessidade pelo significante.[1]

O sujeito é, então, o resultado de uma constelação familiar simbólica particular, que possibilita o advento de um desejo, cuja característica, tal como o lembra Lacan, deve ser a de "um desejo que não seja anônimo".[2]

A constituição do sujeito, a partir da metáfora paterna, desnaturaliza a definição mesma de família, tal como ela pode ser interpretada por um antropólogo ou um sociólogo.

As novas formas familiares que encontramos na atualidade não fazem senão confirmar que a família é uma estrutura simbólica que, embora possa apoiar-se nos vínculos biológicos, se distingue destes para impor suas próprias leis.[3]

Em História da sexualidade, de Michel Foucault, encontrei uns parágrafos muito ilustrativos a respeito de nosso tema. Interessa-me especialmente citá-lo por marcar um período anterior à época vitoriana, que se parece bastante com nossa atualidade. Nesse texto, ele considera que, na época, vitoriana, a sexualidade da família conjugal foi encerrada e orientada para uma única finalidade: a reprodução.

Recorda que, no começo do século XVII, a moeda corrente era uma certa franqueza. Eu o cito:

[...] as palavras eram ditas sem reticência excessiva e, as coisas, sem demasiado disfarce […]; […] gestos diretos, discursos sem vergonha, […] anatomias mostradas e facilmente misturadas, […]: os corpos "pavoneavam"[...].[4]

Esta descrição bem que poderia ser a de nossos dias, não é?

E Foucault prossegue:

[...] um rápido crepúsculo se teria seguido à luz meridiana, até as noites monótonas da burguesia vitoriana. A sexualidade é, então, cuidadosamente encerrada. Muda-se para dentro de casa. A família conjugal a confisca. E absorve-a, inteiramente, na seriedade da função de reproduzir.[5]

Hoje, contamos com novos enfoques que não tomam a família burguesa da sociedade ocidental como a norma a ser seguida.

Podemos descrever uma multiplicidade de formas de família de tipos muito variados. Esta diversidade afirma ainda mais a posição da psicanálise que, longe de sustentar-se nas regras gerais, aponta a particularidade do sujeito buscando recortar o sintoma de cada um.

Freud construiu a Psicanálise a partir do Complexo de Édipo e faz parte de nossa experiência como analistas passar por ele em nossa prática. Lacan o formalizou em termos linguísticos - tal como mencionei há pouco - em torno da metáfora paterna e, embora estejamos advertidos da decadência da figura do pai, desde o último ensino de Lacan, tão retomado em muitos de nossos espaços de formação, a orientação do tratamento é em direção ao real, como bem o afirma Miller:

[...] é preciso constatar que, quando se trata de saber-fazer na prática, se utiliza a referência edípica de maneira insistente e com bons resultados, o que permite ao analista ordenar o caso e situar-se. [6]

Mas, embora nossa prática passe pelo Édipo, seu assunto, porém, mudou porque, hoje, as transformações da família nos impõem novas questões, que só podem ser interpretadas mais além da estrutura clássica do Édipo.

Toda família é um aparato de gozo e é neste campo que se jogam os assuntos de família. Trata-se, pois, de retomar esses assuntos buscando iluminar e recortar a forma singular do gozo de cada um.

Quando falamos de novas configurações familiares, nos referimos às mudanças que se produziram na estrutura clássica da família tradicional do matrimônio: pai e mãe com seus filhos.

Há um tempo, li em uma nota do jornal o seguinte título: "O lento adeus à mamãe e papai". Certamente não se tratava de uma despedida porque os pais iam viajar. O subtítulo dizia: "Com a incorporação dos filhos de matrimônios homossexuais às escolas, pedagogos, pais e crianças se adaptam a uma mudança social que já começa a impactar até na linguagem da comunidade educativa".[7]

O artigo relatava que a inserção das famílias homoparentais nas escolas é algo muito novo, com o qual a sociedade argentina está aprendendo a conviver. Professores e diretores das escolas buscam informar-se a esse respeito, fazendo cursos para poderem adquirir as ferramentas necessárias com as quais comunicar-se com as crianças que vivem essas novas realidades. As reuniões de pais são, agora, reuniões de família, as anotações no caderno de comunicações do Jardim de infância já não começam com a palavra "Mamãe" e, além disso, já não se festeja na escola o Dia da mãe ou do pai, mas, sim, o Dia da família. "O simples mamãe e papai parece estar caindo lentamente em desuso".

No caso das mulheres, muitas delas optam pela inseminação artificial, com doador, ao passo que os homens, em sua maioria, escolhem a adoção. A nota relata exemplos diversos, mas, em todos eles, fica manifesta a naturalidade com a qual as crianças recebem essas novas maneiras de configuração familiar. Ao chegar à porta do Jardim de infância, uma coleguinha de Santi passa o braço sobre seu ombro e lhe diz: "Que sorte Santi! Hoje, tuas duas mamães vieram te buscar".

Sem dúvida, nas últimas décadas o conceito de família foi revolucionado: há famílias tradicionais, famílias juntadas, famílias monoparentais, famílias homoparentais. As crianças falam da namorada do papai, do marido de sua mamãe, de seus dois papais ou de suas duas mamães, sem que ninguém se escandalize. Não podemos deixar de nos interrogar sobre essa mutação das formas familiares e suas consequências para a psicanálise.

É cada vez mais frequente a decisão de gravidez por mulheres sozinhas, com o desejo de não sacrificar sua maternidade precisamente pelo fato de não formar um casal: hoje, é moeda corrente congelar óvulos em uma certa idade, à espera de poder utilizá-los alguns anos mais tarde até formar uma família.

Lembro-me do caso de um casal que veio me consultar porque o homem havia passado por um tratamento de quimioterapia, o qual o impedia de engravidar sua mulher. Frente ao desejo de ter um filho, a decisão foi utilizar o esperma de um doador e, assim, puderam ter sua primeira filha. Mas a grande surpresa foi que, menos de um ano depois, a mulher ficou grávida naturalmente de seu marido, o que lhes permitia ter um segundo filho, desta vez sem doação alguma. O problema que se apresentou ao pai, a partir daí, foi como explicar à primeira filha que ele não era seu pai biológico.

Essa era a angústia fundamental para o pai, mas de modo algum para a mãe. Essa questão abre para a pergunta sobre a paternidade.

O que é um pai?

Como explicar a esse senhor que o genitor nunca é pai automaticamente, pois se trata de uma atribuição simbólica, que deve acontecer tanto do lado do pai como do lado do filho para que a função paterna se sustente como tal?

O importante que eu gostaria de assinalar, é que consultas desse tipo chegam cada vez mais a nossos consultórios. Portanto, que melhor espaço para nos interrogarmos, para discutirmos, para buscar novas respostas, que nosso próximo ENAPOL?

A psicanálise permite nos metermos com os assuntos de família de cada analisante, mas sabemos que isso não se alcança com o relato das historietas, pois é necessário saber que a família é algo a ser atravessado e isso só se consegue mediante uma análise, única forma de acesso a um amor mais digno, inclusive a um desejo mais liberado e a um gozo melhor regulado.

NOTAS

  1. Miller, J. A., (2006), Cosas de familia en el inconsciente, Introducción a la Clínica Lacaniana, Barcelona: RBA, p. 541.
  2. Lacan, J., (1991), Dos notas sobre el niño, Intervenciones y textos 2, Buenos Aires: Manantial, p. 56.
  3. Bassols, M., (2007), Familia, Revista Lacaniana de Psicoanálisis 5/6, Buenos Aires: Grama, p. 160.
  4. Foucault, M., História da sexualidade, Cap. I, Nós, vitorianos, Rio de Janeiro, Ed. Graal, 1988, p. 9.
  5. Ibídem, p. 9.
  6. Miller, J.-A., (2003), La pareja y el amor. Conversación clínica en Barcelona, Buenos Aires: Paidós, p. 19.
  7. Buscaglia, T. S., El lento adiós a mamá y papá, Diario La Nación. Extraído sábado 11 de mayo de 2013, http://www.lanacion.com.ar/1580912-el-lento-adios-a-mama-y-papa

Tradução: Vera Avellar Ribeiro