Imprensa e difusão

#AssuntosEpistolares 13

Envia: Gabriela Cuomo

Cada uma das tuas palavras confirma o que sempre soube. Os filhos são somente das mães, os pais fecundam e sua história acaba ali.

Dentro de pouco tempo nem para tal serão necessários, bastará um doador e uma seringa, e assim finalmente se encerrará a penosa história da família, o baile das ficções que tem devastado o equilíbrio psíquico de tantas gerações.

Na minha casa de Trieste somos muitos, não me faltará ajuda, nem companhia. O menino crescerá sem viseiras, sem hipocrisias, nunca se verá obrigado a colar em seu quarto um cartaz com as palavras: "a família é tão harmoniosa e estimulante como uma câmara de gás".

Será uma criança livre e irá ao encontro de um mundo igualmente livre, sem deformações, sem as repressões impostas pelo patriarcado, pelo capitalismo e pela igreja.

Não terá temores nem angústia porque poderá crescer seguindo a bondade natural que jaz no coração de todos os homens. E sua alma será tão grande que talvez eu nunca chegue a conhecê-la de verdade, mas isso, contrariamente a ti, não me inquieta nem me faz mudar de ideia.

O desafio é precisamente este, trazer ao mundo seres mais completos do que nós. Se não se consegue fazer a revolução com armas, pode-se faze-la, pelo menos, criando os filhos de outra maneira.

G. diz que em algum lugar no céu estava escrito que nossas existências tinham que encontrar-se e unir-se em uma nova vida. Ainda que você não aceite, em alguma conjunção astral estava escrito nosso destino e o do nosso filho. Provavelmente, para realizar tal plano nos perseguimos em vidas passadas mas, como te recusas a procriar, teu karma será muito longo e desolador. Provavelmente reencarnarás em um animal: te veria bem como réptil (com o sangue frio que rega cada célula do teu corpo e do teu minúsculo cérebro), ou bem, como um mandril, com o focinho vermelho aceso, como o traseiro.

Teu filho parecerá inevitavelmente contigo, terá teus olhos, tuas mãos ou tua forma de rir, mas para mim será somente ele mesmo, e tu serás um número no catálogo pedido por correspondência. Se ele me preguntar algo de ti, contar-lhe-ei de um magnífico amor impossível, vivido em uma noite em uma praia longínqua…, farei que sonhe com seu pai.

Por sorte, G. está em minha vida. Não sei o que teria feito sem ele. Apesar do teu sarcasmo, não é um novo amante, mas uma pessoa única, muito importante para mim. Está me ajudando a reunir os pedaços do caos que tenho dentro de mim. Somente ele tem a paciência de colá-los, de dar a cada fragmento um sentido. G. sabe ver onde os demais não veem, sabe localizar, no emaranhado de caminhos e veredas de nossas vidas, o fio que nos leva à salvação.

Nunca te disse isso, mas há anos, também esperava um filho teu. Não soubeste porque, apenas alcançou o tamanho de um girino, acabou na privada. Fiz tudo sozinha, sem recorrer a ninguém. Naquele momento pareceu-me algo de escassa importância. Somente agora escavando nas ruínas, dei-me conta de quanto esse ato, na realidade, determinou a grande instabilidade da minha casa. Provavelmente já estava ameaçada devido à má qualidade do material com o qual fora construída. Atrás de mim estava minha mãe, com sua obstinação burguesa, meu pai, um homem cinzento que derramou em mim somente um afeto morno ao qual correspondi com um sentimento ainda mais frio: um coleóptero entre os coleópteros, o escaravelho da metamorfose que se protege debaixo da cama.

Mas não quero entediar-te com estas minúcias burguesas.

Então me desfiz do nosso filho porque tinha medo. Medo da responsabilidade, do compromisso, de ter que renunciar à minha juventude, de não estar preparada para combater pela revolução, medo de não estar à tua altura, de decepcionar-te. Menti a primeira vez que dormimos juntos: não tomei a pílula. E talvez abortei porque temia que me criticasses por essa mentira.

Por que não tens perguntado estas últimas vezes?

Segundo G. a resposta é clara: inconscientemente tu também desejas um filho. Mostras ares de Herodes para mascarar teu terror, mas agora, após ter lido tua carta, não me importam em nada teus medos. Meu bichinho cresce dia após dia, e é como si tivesse um pequeno sol dentro de mim: é cálido, dá luz e me ajuda a seguir.

Levarei esta gravidez até o final: tenho 30 anos e não posso continuar esperando, já não sou a menina ingênua que descreves, cativa do seu fascinante professor.

Agora trata-se de escolhas responsáveis e eu, como adulta, quero ser mãe. Não tenho um emprego, mas tenho uma casa em Trieste (presente dos meus pais burgueses que não quis rejeitar). Por enquanto, estou analisando meu subconsciente, e não é pouco. De vez em quando dou alguma aula particular e quando meus pais forem para o outro mundo, terei uma renda com que contar. Ou seja, fique tranquilo, não presenciarás nunca a penosa cena de me ver mendigar na tua porta com um filho no colo.

Sabes o que diz G.? Que cada um de nós tem um fio na mão e que esse fio nos leva à nossa estrela. Cada um de nós tem uma estrela no céu e nosso destino é aprender a segui-la. É uma estrela cometa, nosso karma está escrito em sua estrela, se soltamos o fio tudo está perdido, forma-se um enredo, um emaranhado de estrelas.

E é precisamente este, Emaranhado de estrelas, o título do seu livro mais importante. Sei que a ti não te importam em nada estas coisas, mas deves saber que se não buscas tua estrela, se não a segues, antes ou depois, se enredará com o fio de outras estrelas e será impossível desenredá-la, começará a apagar-se até desaparecer.

A estrela é um pequeno sol, mas quando se esgota, sua luz se torna fria, glacial. E é sob esta sinistra claridade como conduzirás teus passos enquanto meu filho e eu correremos felizes no final do arco-íris de nossas estrelas cometa".

Susanna Tamaro, Escucha mi voz, Seix Barral, Buenos Aires, 2007, pp.84-87.