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#AssuntosEpistolares 17

Envia: Analía Trachter

Carta de Simone de Beauvoir a Sartre

Querido pequeno ser:

Quero contar-lhe algo extremamente prazeroso e inesperado que aconteceu-me: há três dias me deitei com o pequeno Bost. Naturalmente fui eu quem o propôs, o desejo era de ambos; durante o dia mantínhamos sérias conversas enquanto que as noites se faziam intoleravelmente pesadas. Uma noite chuvosa, em uma granja de Tignes, estávamos deitados de costas a dez centímetros um do outro observando-nos há mais de uma hora, retardando o momento de ir dormir, sob diversos pretextos.

Ao final comecei a rir como tonta olhando-o, e ele me disse: "Do que você está rindo?"

Respondi-lhe: "Estava me preguntando que cara você faria se lhe propusesse deitar-se comigo".

Ele replicou: "Eu estava pensando que você pensara que eu tinha vontade de beijá-la e não tinha coragem". Enrolamos ainda uns quinze minutos mais antes de que se atrevesse a beijar-me. Surpreendeu-lhe muitíssimo que eu lhe dissesse que sempre sentira muita ternura por ele e ontem a noite acabou por confessar-me que há tempos me ama. Tenho sentido muito carinho por ele. Estamos passando dias idílicos e noites apaixonadas. Parece-me coisa preciosa e interessante, mas é leve e tem um lugar muito determinado em minha vida: a feliz consequência de uma relação à qual sempre fui grata. Até a vista querido pequeno ser; sábado estarei na plataforma e se não estiver lá, estarei na cantina. Tenho vontade de passar intermináveis semanas a sós contigo.

Te beijo ternamente,

teu Castor.

Cartas a Sartre de Simone de Beauvoir, Lumen, 1996.