Imprensa e difusão

#AssuntosEpistolares 20

Envia: Diego Núñez

Carta a Charles Morton
1 de janeiro de 1945.

Tenho uma história em mente, a qual espero escrever antes de morrer. Não terá quase nada de dureza na superfície, mas a atitude de mandar tudo ao inferno, que em mim não é pose, provavelmente aparecerá de qualquer maneira.

O nome do meu tio duvidosamente honesto (tio somente pelo casamento) era Ernest Fitt, inspetor de caldeiras ou algo assim, ao menos nomeado assim. Ele já morreu. […] Tinha um irmão que era um personagem assombroso. Fora empregado ou gerente de um Banco de Waterford, Irlanda (de onde vinha toda a família da minha mãe, ainda que nenhum deles fosse católico) e roubara dinheiro. Limpou o caixa em um sábado e, com ajuda dos mações, escapou da polícia indo para o continente europeu. Em um hotel da Alemanha roubaram seu dinheiro, ou a maior parte dele. Quando o conheci, muito tempo depois, era um senhor extremadamente respeitável, sempre vestido impecavelmente e de uma incrível parcimônia. Uma vez convidou-me para a ceia. Depois da ceia inclinou-se sobre a mesa e me disse em um sussurro confidencial: "Cada um pagará o seu". Não tinha tampouco uma gota de sangue escocesa. Puro irlandês protestante de classe média. Tenho muitíssimos parentes irlandeses, alguns pobres, alguns não pobres, e todos protestantes; alguns pela independência e alguns inteiramente pró-britânicos… Aqui as pessoas não entendem os irlandeses. […] Eu cresci com um terrível desprezo pelos católicos, e ainda hoje tenho problemas com eles. […] O desenlace divertido do meu tio foi ter terminado com uma amante judia em Londres, criou o filho dela, teve outros dois filhos ilegítimos, e ao final se casaram. Mas nunca a levou à Irlanda! […].

Chandler, Raymond, El simple arte de escribir. Cartas y ensayos escogidos, Emecé lingua franca, 2002.