Imprensa e difusão

#AssuntosEpistolares 21

Envia: Roberto Gárriz

Queridos Warner Brothers

Ao que parece há mais de uma forma de conquistar uma cidade e de mantê-la sob o próprio domínio. Por exemplo, até o momento em que pensamos em fazer este filme, não tinha a menor ideia de que a cidade de Casablanca pertencera exclusivamente aos Warner Brothers. Contudo, poucos dias depois de anunciar nosso filme recebemos seu longo e ominoso documento legal que nos ameaçou para não utilizarmos o nome de Casablanca.

Parece ter ocorrido que em 1471, Ferdinand Balboa Warner, seu tataravô, ao buscar um atalho até a cidade de Burbank, tropeçou com as costas da África e, levantando seu bastão (que mais tarde trocou por centenas de ações na bolsa), as denominou Casablanca.

Simplesmente, não compreendo sua atitude. Ainda quando pensaram na substituição do seu filme, estou seguro que o amante de cinema mediano aprenderia oportunamente a distinguir entre Ingrid Bergman e Harpo. Não sei se eu poderia, mas desde agora gostaria de tertar.

Vocês reivindicam seu Casablanca e pretendem que ninguém mais possa utilizar esse nome sem permissão. O que me dizem de Warner Brothers? É também de sua propriedade? Provavelmente vocês tem o direito de utilizar o nome Warner, mas, e o Brothers? Profissionalmente, nós éramos Brothers muito antes que vocês. Nós já estávamos de volta com o fubá como The Marx Brothers quando a Vitaphone era ainda um simples lampejo no olho do inventor, e inclusive antes de nós houveram outros irmãos: os Smith Brothers [fabricantes de pastilhas para a tosse], os Karamazov Brothers; Dan Brothers, um meio de campo do Detroit; e Brother, can you spare me a dime? (que originalmente se chamava BrotherS, can you spare me a dime? Mas isto era reduzir demais a moeda, assim que despacharam um irmão, deram todo o dinheiro ao outro e o deixaram em Brother, can you spare me a dime?).

E agora, Jack, falemos de você. Você diria que o seu nome é um nome original? Pois, não o é. Era muito utilizado antes de você nascer. Sobre a marcha, me recordo dos Jacks: havia o Jack de JACK AND THE BEANTALK [conto infantil] e o Jack Estripador, que se fez uma bela reputação no seu tempo.

Enquanto você, Harry, seguramente assinará seus cheques com a firme convicção de que é o primeiro Harry de todos os tempos e de que todos os demais Harrys são impostores. Recordo dois Harrys que lhe precederam. Existiu Lighthouse Harry de fama revolucionária [refere-se a LightHORSE Harry, apelido de Lee Henry, herói da revolução dos EUA], e também um Harry Appelbaum que vivia na esquina da rua 93 com a Lexington Avenue. Desgraçadamente, Appelbaum não era demasiado conhecido. A última vez que soube dele, vendia gravatas em Weber e Heilbroner.

Falemos agora do estúdio de Burbank. Creio que é isto o que vocês, irmãos, chamam seu quartel general. O velho Burbank desapareceu. Quiçá se recordem dele. Era um homem muito habilidoso na horta. Sua mulher dizia sempre que Luther tinha dez polegares verdes. Que mulher deve ter sido! Burbank era o mago que entrecruzava todos esses frutos e legumes até deixá-los em tal estado de confusão e incerteza que nunca chegava a decidir si deveriam ir para a mesa de jantar no prato da carne ou no das sobremesas.

Isto é uma simples conjectura, mas, quem sabe?, talvez os sobreviventes de Brubank não estejam demasiado felizes perante o fato de uma fábrica de filmes a destajo tenha se instalado na sua cidade, tenha se apropriado do nome Burbank e o utilize como apresentação dos seus filmes.

Groucho Marx

Estas cartas de Groucho Marx estão atualmente na Biblioteca do Congresso, em Washington.