Imprensa e difusão

#AssuntosEpistolares 22

Envia: Karina Castro

À espera de Juan Carlos Onetti

Esperando-o. Ele não disse hora. Arrumo o caos da costura de ontem, jasmins do país, diário, salus, whisky, banheiro, jasmim, comida. Às nove ele ligou para avisar que vinha, –quase adormecido, disse–. São onze. 30 graus a esta hora. A casa toda escura; todas as janelas abertas. Noites nos jardins da Espanha, o quinteto de Bruckner, lindos, angustiante. Desnuda, com um pouco de roupa branca e o penhoar branco pendurado, no espelho, de súbito, um fantasma. Vagando pela casa, chegando até a frente para ver se a linha de luz debaixo da porta se formava. E as vezes, se formava, mas aqui não chamou ninguém. Por instantes, na escuridão, recostada em uma moldura, olhei, fora do tempo, fixamente essa porta, o lugar da linha, a linha mesma larga e nítida, esperando ver a sombra dos seus pés rompendo-a. Uma das vezes contei até 39 –são 39 degraus – segundo as batidas do meu pulso lento, para esperar melhor. Depois recostei-me numa cama de lá adiante. Mas dali via o céu claro de verão, a porta, não sei, me dava uma angústia no peito, senti que ia chorar, e fui para o lado do rádio.

Tomou o taxi com sono e deu sua direção; adormeceu onde estava; veio tocou a campainha, como acontecia, ainda virá. Bom. Devo agradecer-lhe estas duas horas sérias, graves, lindas, apaixonadas, minha própria incrível beleza de hoje, a música, o silêncio, as reviradas do meu coração cada vez que a luz se acendeu, os desmaios cada vez que a vi se apagar, a integridade, a intensidade destas duas horas de amor.

Idea Vilariño [13 de enero de 1960]

Vilariño, Idea, Diario de juventud, Cal y Canto, Montevideo, 2013.