Imprensa e difusão

Resonancias

"Com a pedra no bolso"
por Fernanda Mailliat

Desde as primeiras páginas das Sagradas Escrituras, temos evidências claras que os assuntos de família nunca são coisas simples.
Há aqueles que sustentam que houve uma primeira mulher que se separou de Adão por uma disputa íntima. Ela abandona o domicílio conjugal, instala-se nas imediações do Mar Vermelho e se transforma em mãe de muitos demônios. O homem, comovido pela decisão de sua esposa, pede a Deus que interceda para trazê-la de volta. Mas as tentativas do Criador -que envia três dos seus melhores anjos para mediar a reconciliação- são absolutamente vãs diante da decisão irrevogável daquela mulher.
A partir de então Lilit entrará na história como uma personagem ligada ao escuro, inquietante e ameaçadora para todos aqueles que vivenciem assuntos próprios da vida familiar.

A segunda parceira, mulher de uma beleza extraordinária, foi condenada ao esquecimento devido ao mau juízo do Supremo. A história conta que Adão nunca pôde superar o estupor que lhe causou ver como Deus a ia montando com tripas, pelos e barro. Ser testemunha de semelhante criação divina teve como consequência direta que o pobre homem jamais pudesse aproximar-se dessa criatura.
Nunca mais se soube dela, tanto da primeira como da segunda destas parceiras não encontramos rastros no Antigo Testamento.
A terceira, é a famosa Eva bíblica. A primeira das mulheres ou a primeira mulher oficial de Adão para os cristãos.
Assim – com mais ou menos detalhes- Deus criou a célula original daquilo que iria ser a família. Depois veio a maçã, a expulsão do Éden, os irmãozinhos Cain e Abel e um sem-número de enredos familiares.

Os clássicos tampouco escapam dos Assuntos de Família. Hamlet, Édipo ou Antígona, vivem imortalizados em permanente tormento, sob o empuxo e atravessados por suas trágicas historias familiares.

E quem não leu ou escutou falar dessa enorme família que se enredou, e se enredou, até ultrapassar os limites do permitido e ver nascer uma criança com rabo de porco em Macondo?

Não esqueçamos Dora, nossa Dora. Ela poderia ter sido a jovem heroína de uma novela do coração, se não tivesse encontrado com Freud lhe perguntando o que ela tinha a ver com esse dramático vivenciar inter familiar. A icônica pergunta faz um giro nessa trama, mas nós sabemos muito bem que até o próprio Freud fica um pouco enredado nisso tudo.

Por diferentes e discordantes que pareçam estas histórias, todas elas são modos de contar aquilo que parece não deixar de se escrever.
Os assuntos de família podem ir tomando as cores da época, mas resistem, insistem e os encontramos sempre.
Nossas supervisões dão conta disso. E por acaso em nossas próprias análises não lhes dedicamos todo um tempo a desembaraçando-nos deles?
Eles se escrevem e reescrevem a partir da singularíssima pena daquele que os relata e padece.

Então, quem estiver livre de Assuntos Familiares, que jogue a primeira pedra!!

BIBLIOGRAFÍA

  • Freud, S.: Fragmento da análise de um caso de histeria. In Obras Completas. Edição Standard Brasileira, Rio de Janeiro, Imago, 1996, vol. VII.
  • García Márquez, G.: Cem anos de solidão. Tradução de Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro, Editora Rercord, 78° edição, 2011.Sudamericana. 1995.
  • Graves, R.; Patai, R. (1969), Los mitos hebreos. El libro del Génesis. Bs. As. Editorial Losada. 1969.
  • Nueva Biblia de Jerusalén. (Revisada y aumentada) Bilbao. Editorial Desclée De Brouwer, S.A. 1998. Génesis. I "El origen del mundo y de la humanidad"
  • Shakespeare, W.: Hamlet, príncipe da Dinamarca. IN: Shakespeare – tragédias, vol. I. Trad. F Carlos de Almeida Cunha Medeiros e Oscar Mendes. São Paulo, Abril Cultural, 1978. Edicomunicación. Barcelona. 1994.
  • Sófocles: Édipo em Colono. In: A trilogia tebana: Édipo Rei, Edipo em Colono, Antígona. Trad. Mario da Gama Kury. 3a edição, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1993.